19/12/2017 07:01
Conheça a cidade brasileira que vive do guaraná
Isolada na Floresta Amazônica, são necessárias 20 horas de barco de Manaus para chegar até lá.

Segundo a lenda do guaraná, foi depois que uma mãe enterrou o olho de seu filho, considerado um protegido dos deuses indígenas, que nasceu o primeiro fruto de Guaraná. Essa é história que contam em Maués, a terra do guaraná, habitada pelo povo Saterê-Mawé.

A cidade ribeirinha de Maués, no interior do estado do Amazonas, tem raízes indígenas e sua vida e economia baseada principalmente no cultivo do guaraná. São mais de dois mil produtores da espécie na região. Para chegar à cidade, isolada na Floresta Amazônica, são necessárias cerca de 20 horas de barco partindo de Manaus. A outra forma de chegar até o local é fretando um avião bimotor.

Maués tem aproximadamente 60 mil habitantes, mas o curioso é que dois terços de seus cidadãos vivem em casas isoladas e em pequenas comunidades ao longo dos rios que permeiam o município, tendo o barco como único meio de transporte.

É em uma dessas pequenas propriedades, no rio Limão, que vive a Dona Ester Meister que mora com marido e filhos. Ela produz guaraná há muitos anos, aprendeu com seu pai. "Desde criança eu sempre fui da roça. Eu sempre gostei de trabalhar com o guaraná, sou apaixonada pelo meu trabalho e pelo o que eu faço", conta dona Ester. O plantio do guaraná em sua propriedade permite que ela e sua família tenham um renda extra no final do ano. Eles plantam, colhem e torram a semente do fruto, que é vendido em sacas de 40 quilos.

O guaraná, ou wa'raná, em tupi, é uma espécie de cipó amazônico, que gosta de clima quente e úmido. Sua safra se dá apenas uma vez ao ano, entre os meses de outubro e dezembro. Para produzir o pó, que contém o energético natural, é necessário separar a semente do fruto e torrá-la, como no processo do café. A semente do guaraná é a parte preta do fruto, que é semelhante à pupila de um olho. O Brasil é o único produtor comercial de guaraná do mundo.

O pó do guaraná é rico em substâncias funcionais como a cafeína, a teobromina, a teofilina e a catequina. Além de seus efeitos já conhecidos, como dar energia e disposição, suas propriedades também auxiliam no emagrecimento, ajudam o sistema imunológico, melhoram a pressão sanguínea, reduzem o colesterol, possuem substâncias anti-inflamatórias e antioxidantes, prevenindo também o envelhecimento.

 

Fazenda Santa Helena

O maior produtor e comprador de Guaraná em Maués é a Ambev, que utiliza o ingrediente para produzir o refrigerante Guaraná Antarctica. Noventa por cento do guaraná utilizado pela fabricante é produzido por cerca de 1.500 pequenos produtores da região que vivem da agricultura familiar, como a Dona Ester. Os outros dez por cento são cultivados na Fazenda Santa Helena, fundada em 1970 em Maués pelos donos da Antarctica, hoje pertencente ao grupo Ambev.

Com a ambição de tornar o processo produtivo ainda mais sustentável, existem dois projetos piloto acontecendo no local, que funciona também como um centro de estudos do guaraná: cultivo em sistema agroflorestal e cultivo orgânico.

 

Plantio agroflorestal

No sistema agroflorestal, são combinadas diferentes espécies que se complementam em uma mesma área. Isso evita que as plantas sejam atacadas por pragas e criam a condição perfeita com os nutrientes necessários para que o guaranazeiro cresça saudavelmente.

No caso da fazenda Santa Helena, estão combinado ao plantio do guaraná, o ingá, a andiroba e o pau-rosa. O ingá é uma leguminosa que fixa o nitrogênio do ar no solo. Antes de plantar o pé de guaraná, eles irão podar suas folhagens e usá-las na cobertura do solo, o que ajuda a dar ainda mais nutrientes. "É como se a gente estivesse reproduzindo a regeneração natural que ocorre no ambiente. Primeiro vem a mata secundária, as espécies pioneiras, como o ingá e a andiroba e depois de estabelecidas, vamos entrar com espécies primárias, como o guaraná e o pau-rosa", explicou Roosevelt.

 

Método orgânico

Outro projeto que está acontecendo também na fazenda é o cultivo orgânico. Os engenheiros agrônomos estão utilizando o bagaço do guaraná, a borra que sobra durante o processo da fabricação do extrato, como adubo orgânico. Também é utilizado esterco de galinha. As plantas cultivadas pelo método já deram frutos este ano e estão notavelmente mais fortes, verdes e viçosas, agora eles estão quantificando quanto de cada adubo é necessário e ideal para o plantio.

Ambos os projetos estão em fase de testes e análises para que possam ser replicados, principalmente nas fazendas dos pequenos produtores, que anualmente são treinados sobre as melhores práticas de plantio.

Toda a produção de sementes da fazenda é enviada para a fábrica de extratos, que também fica na cidade. Lá os grãos ensacados, já torrados, são transformados em extrato líquido. Esse extrato é enviado duas vezes por mês de barco para Manaus, onde é finalizado o xarope de guaraná que finalmente será enviado para diversas fábricas da Ambev no Brasil e em Portugal.

 

Aliança do Guaraná

A Ambev, juntamente com a USAID, esta também encabeçando a Aliança do Guaraná, que tem por objetivo levar melhorias socioeconômicas, culturais e educacionais para toda a região. Em fase inicial, o projeto está sendo liderado pela IDESAM, Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia. Segundo Eric Brosler, Coordenador Técnico do projeto, neste momento eles estão fazendo levantamentos e discutindo os problemas mais emergenciais de Maués. Após esta fase, serão desenvolvidos projetos específicos que devem ser implementados já em 2018.
Fonte: www.ciclovivo.com.br
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